terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Mão de faca


Não sei da história, mas tenho certeza de que o parto foi sofrido. Não pode ter outra explicação essa fome de vida. Imagino também a primeira vez que viu o mundo: olhos bem pretos e arregalados. Nascia negro, mão de faca, insolente e carinhoso. Cresceu no meio do mato e no coração da cidade. Foi moleque no terreiro e no asfalto. Canela fina, sempre tinha resposta pra tudo, nem que inventasse, nem que enrolasse, nem que gargalhasse. Desde cedo, soube o que é ter destino e aprendeu no tocar do tambor o que nunca precisou ser ensinado. Filho de Oxosse, pôs flecha na mão e no pé, virou capoeira. "Nesse mundo camará, mas não há, mas não há, mas não há quem me mande". O mundo é o meu quintal, e quem manda na minha mata sou eu - imagino ele dizendo isso. Folgado, metido, abusado e tão querido por onde passa, esse nego malandro sabe convencer, no grito ou no papo, pra no fim tudo ser um pouco do seu jeito. Falando assim, parece até que ele é diplomático. Porra nenhuma, briga brincando, brinca brigando e não queira ver ele de outra maneira. E outra, não mexa no seu chapéu. Homem que é homem sabe que não se mexe na cabeça dos outros que os lá de cima logo gritam: Perá lá, que aí mando eu!

Como faz pra conhecer ele? Primeiro te digo cuidado, maneira nas piadas e relaxa nas risadas. E pra encontrar com ele é só sair andando pelas ruas, passar nas curimba, nos samba e nos pagodes. Segue o toque de tambor. Ele é filho do vento, tá onde o vento for.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Asa de borboleta


Asa de borboleta, de que maneira você me faz sentir assim tão leve. Sopro de vento, de que maneira me faz sentir assim tão folha seca. Raio de sol, de que maneira me faz sentir assim tão semente que brota. Tão superlativo que medos viram virgulas, que os pontos nunca são finais e as interrogações viram respostas. Água de rio, de que maneira me faz sentir tão mar. A te receber, a te admirar, a me adoçar do salitre de dias corridos. Pétala, de que suave jeito você me faz assim sentir.
Palavra a palavra, gesto que inspira, olhar que acaricia. Amor, de que maneira você me faz me sentir assim tão feliz.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Eparrei



É sentir que o peito vai estourar.
Que seus pés vão sair do chão.
Um vontade de rodar, e rodar e rodar.
Perder o controle das mãos.
Se sentir como espada cortando o ar.
E nos olhos o trovão.
É uma vontade de gritar, lá do alto gritar
e o vento agitar com o leque na mão.
É ela no fogo, e não se queima.
É ela o fogo e não se queima
É ela do fogo e não se queima.
É brisa, é raio, é trovão.
É vento, é fogo, é furacão.
É Oya no meu corpo, meu coração.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Coragem


Essa noite não consegui dormir. Rolava na cama ouvindo vozes que gritavam besteiras. Sentia no meu corpo dores de discursos não pensados, de palavras inconsequentes. Nas costas vinham chicotadas de um ódio sem a menor explicação. A cabeça pesava sem nem bem entender o porquê. Porque de tanta raiva, de tanta mágoa, de tanto fogo nos olhos. Tentava dormir e não conseguia. Um medo do mundo ser assim, tão bobo, tão superficial, tão frouxo no sentir. Feio bonito, gordo magro, alto baixo, bom mau. E enquanto ajeitava o travesseiro, me deu vontade de chamar o mundo todo num canto, colocar as pessoas sentadas umas do lado das outras até elas fazerem as pazes com os irmãozinhos. Me imaginei fazendo isso e ri. Ri e achei que isso era possível. Mas eu ainda não conseguia dormir. Rezei. Pedi aos meus santos que me ajudassem a dormir. E que me dessem, no dia seguinte quando eu acordasse, a coragem para amar. 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Amor de mãe



          Ventre do meu ventre. De que maneira você cresceu assim tão rápido e de água virou copo? Onde foi que me perdi? Ainda tenho a sensação que vou encontrar aquela sua boneca preferida no meio do seu armário. Que nada! Ontem o meu sapato era brincadeira e hoje sou que te peço o batom emprestado. Minha menina. Por que hoje, vendo você sair de casa, eu me lembrei da dor do parto? Logo eu, que tanto insisti pra você arrumar o quarto. Mas vai filha minha, desmancha teu ninho e voa. Vai viver ilusão porque um céu se faz de nuvem. Vai ser mulher que eu vou estar sempre aqui sendo mãe.Vai que um dia você vai entender.


         Que saco! Como pode uma pessoa que a gente  ama tanto ter a capacidade de nos tirar do sério em tão pouco tempo. Eu cresci, aceita isso! Não sou mais a menininha que brincava com o seu vestido. Quero ser eu, me descobrir, e com você me amando assim não dá! Mas também não precisa chorar, você sabe que não foi isso que eu quis dizer. Mas é que você fala de um jeito, que sei lá, me deixa tão confusa. Tem horas que eu não sei quem tá falando, se sou eu ou se é você. E me dá um medo de não saber ser eu sem ter você por perto, entende? Medo de ficar sem colo, sem ombro pra chorar. De nunca mais poder ser menina de novo. Eu vou mãe, eu quero ir. Quero descobrir tudo que a vida tem pra me dar. Eu vou ser feliz mãe, eu sei que vou. Mas posso pedir um favor, um último favor? Não desmonta meu quarto, não dá minha boneca nem me nega seu colo. Não sei ser eu sem você mãe, não sei. 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Camaleão



Mais é camaleão esse bicho danado para mudar de cor e de galho. E eu que com tempo fui aprendendo a tirar dos meus pés e sonhos a rigidez das âncoras de realidade ainda me impressiono vendo esse fenômeno da natureza.
Mais é camaleão esse bicho danado que mesmo mudando sempre se demora em ser um pouco verde, depois um pouco marrom, um pouco castanho e por aí em diante. Pode mudar sempre, mas não quer. Quer largar-se um pouco em cada lugar, viver, sentir, amar. Ser um camaleão diferente em cada galho que parar. Mais é camaleão aquele bicho danado que não copia tronco, não remeda cor e não se esconde, se transfigura. A pele é a mesma, o olho atento também, a ferramenta-lingua é a mesma, mas o corpo não. Muda e namora cada espécie diferente de casca que passa perto.
Mais zé camaleão um bicho danado que traz de Deus o dom de se mudar. E de tão distraído entre andanças e permanências nunca se deu conta de que é assim. Que essa capacidade de transformar faz parte do que ele é. E quando muda de galho, não carrega concha de caramujo nem casco de tartaruga. Traz a coragem à pele nua.
Mais Zé Camaleão, esse bicho danado, me mostrou muita coisa sobre como viver. Que parar em um galho não é nada, que para ser camaleão temos que ser um pouco como cada galho do caminho, cada folha seca, cada árvore grande. Porque amar é mudar de cor.  Me mostrou que somos o que queremos ser. Basta mudar de galho, basta mudar de vista, basta mudar de vida.
Mais Zé Camaleão, esse bicho danado, quando você pensa que mudou ele já mudou outra vez.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Ciranda

         Acostumou-se tanto a viver na neblina de amores fugazes que o nascer do sol lhe machucava os olhos. Aprendeu a nadar no raso, a crer no instante, ao carinho no conta gotas, ao gozo de fruta de época. Escrevendo juras de amor em água de rio. Soltando sorriso ao vento. Crescendo palafita em chão de pedra. Como uma criança de orfanato tinha um medo enorme de ser feliz. Era tão grande esse medo que tinha vontade de correr de volta pro seu lugar nenhum. Mas era cobre o brilho dos olhos dela. E tinha um jeito tão especial de se derreter no seu colo que decidiu tirar da gaveta o seu coração de retalhos e colocar no parapeito da janela. E deixou a lua escolher qual ciranda de roda as próximas estrelas iriam dançar.